Cuentos de Iberia

Raul Brandão y el misterio portugués de los árboles

Cravo português, de Joaquín Macedo

Raul Brandão y el misterio de los árboles

"Los pobres son como los ríos. Aplastan la sed de la tierra, hacen que las raíces se hinchen y los árboles crezcan".

Hijo y nieto del mar, Raul Brandão, uno de los autores portugueses más influyentes del siglo XX, supo navegar desde la tierra las contradicciones de su tiempo. Militar de profesión, escritor por convicción y pintor por devoción, plasmó con maestría impresionista los trampantojos de su vida y obra en solo dos colores: el verde y el rojo.

Sebastianista, pero republicano. Como intelectual de la Renascença Portuguesa —el movimiento cultural regeneracionista de principios del siglo XX que buscaba modernizar el país sin perder el arraigo con el pasado—, no esperaba el regreso de un rey salvador, sino de la patria.

Y como impulsor de la revista Seara Nova —una escisión progresista del movimiento que encabezó desde el principio la resistencia contra el Estado Novo—, pretendía encontrar esa patria en el pueblo, en los desheredados. Son ellos los que han abonado con su trabajo, sus lágrimas y su sangre roja la tierra, como se empeñaba en repetir alegóricamente en todas y cada una de sus obras. Es la muerte y el sacrificio de los nadie, su dolor, lo que nutre las raíces de los árboles. La base social que mantiene en pie a una república.

Decadentista, pero optimista. Vemos en su prosa, que de cerca se transforma en poesía, que la vida, igual que la libertad, siempre se abre camino. Pues incluso la muerte forma parte del ciclo de la misma.

En O Mistério da Árvore los cadáveres se convierten en fertilizante para que los troncos crezcan fuertes. Y aunque los opresores, los que viven mucho sin haber vivido nada, solo sepan ver desde las ventanas de su palacio a los troncos como horcas, sus víctimas vuelven en forma de maldición misteriosa, como un Cristo redentor, abonando el árbol que las mató.

Lo mismo sucede en Húmus y Os pobres, sus cartas de presentación en las Españas. Una primera España, la de la República del 73, de la que bebió los valores federalistas. Otra España, la monárquica, a la que temió por sus ansias anexionistas (Alfonso XIII valoró invadir Portugal durante la Gran Guerra para compensar las pérdidas territoriales del 98 y evitar que fuera ejemplo de republicanismo). Y una tercera, la anarcosindicalista y republicana de los años veinte, a la que le devolvió el favor y la savia regando con sus letras, por insistencia del dirigente de ERC Ángel Samblancat, las Novelas Rojas de Fernando Pintado: un exitoso proyecto editorial que acercó a las clases populares, con precios muy reducidos, relatos de Blasco Ibáñez, Marx, Gorki o Federica Montseny.

Los golpes de estado de Primo de Rivera y del Estado Novo le sorprendieron casi tanto como la muerte, en 1930. Y no quiso revelar el misterio de los árboles hasta que, un 25 de abril, de sus ramas secas como fusiles brotaron claveles rojos. La muerte había salido a la calle. Tenía los ojos tristes, pero verdes de esperanza, como la primavera.

José A. López Camarillas, editor y profesor de literatura

O Mistério da Árvore

Esgalhada e seca, os seus frutos eram cadáveres ou corvos. Ninguém se lembrava que tivesse dado folhas nem flor, a árvore enorme que havia séculos servia de forca: ninguém se deitava à sua sombra, e até o sol fugia da árvore estarrecida e hirta que havia séculos servia de forca.

Em frente ficava o Palácio real, construído num bloco de pedra escura, e só o Rei, de alma igual à sua alma, nua e trágica, se pusera a amá-la, a árvore triste que havia séculos servia de forca.

Que doença estranha, lenta mas tenaz, matava o Rei? Só amava os crepúsculos, as agonias da luz, o passado, e a multidão silenciosa vinha vê-lo, ao fim da tarde, de cabeça encostada aos vidros das janelas, fixo o olhar nas águas verdes e limosas e no espectro da árvore levantada diante do Palácio. Tudo que era vivo fugira de ao pé dele, porque o Rei mandava punir a mocidade e o amor, e dez léguas à roda o país tinha sido assolado pelos seus guerreiros brutais. Mandara queimar tudo, devastar tudo no seu reino. Nem uma folha nem uma ave – nem um sinal de vida. De pé unicamente a árvore, desde séculos estarrecida e hirta, a árvore maldita que no seu reino servia de forca.

No silêncio tumular do Palácio os passos do Rei ecoavam pelos corredores desertos, lentos ou precipitados, conforme o pensamento tenaz que o devorava, gastando pouco a pouco as lajes duras do chão. Não podia amar. Nem a voluptuosidade, nem o ideal, nem o amor, nem a carne láctea das mulheres: tudo lhe era vedado. Horas atrás de horas se ouviam no Palácio os passos do Rei doente, toda a noite, toda a noite a rondar...

Sucedeu que veio a Primavera e todas as árvores, para lá do território assolado, estremeceram e se cobriram de flor. Borboletas nascidas do seu hálito noivavam no azul, e dois mendigos amorosos, de países lendários, entraram e perderam-se, naquela terra praguenta. Ela envolta na poalha dos cabelos louros, ele feliz e esbelto, preso ao seu olhar. Eram pobres. E assim, apenas vestidos, vieram enlaçados com a Primavera, cobrindo a terra erma, que calcavam, de vida e de amor. Eram pobres e felizes. Flores esvoaçavam pela sua nudez, e as macieiras dos quintais deitavam galhos fora dos muros, de propósito para os ver passar.

Azul, sonho, entontecimento, toda a atmosfera estremecia. Só o Rei no Palácio deserto vivia braço a braço com a dor. A vida, a luz, as árvores enojavam-no. Queria todo o país negro, deserto e escalvado; e o amor que trespassava a terra e os bichos, a própria morte que tudo transforma, lhe pareciam abominação e afronta. Odiava a vida. Mas deitava-se e sentia palpitar as fragas: os montes eram seios duros, as árvores cabelos ao vento. Para não ver, encerrava-se no Palácio construído dum bloco de pedra, e sozinho ficava então de olhos postos na árvore.

Contemplava-a. Como o Rei, ela era seca e hirta – fora-o sempre – e os seus frutos cadáveres ou corvos. À passagem de Abril e dos mendigos, tudo à volta se transformava: só ela quedava inerte diante da vida e do amor, a árvore trágica que havia séculos servia de forca.

Um dia o Rei soube que dois seres felizes haviam transposto as fronteiras e mandou-os logo prender. Nas últimas noites sentira-os nos espinheiros túmidos, nos sapos dos caminhos que pareciam extáticos, nas coisas que estremeciam, na noite magnética cheia de murmúrios, no vento que atirava para o castelo ramos de árvores luminosos. Punha-se de ouvido à escuta, e a terra, a noite e o mar sufocados iam talvez falar, iam enfim falar!...

Quando os soldados os trouxeram ao Palácio, com eles entrou um bafo novo: cheiravam a sol e a lama dos caminhos e pegava-se-lhes húmus aos pés descalços. A vida rompeu por aquele túmulo dentro e, pois que iam morrer, dir-se-ia que a morte, em lugar da foice simbólica, pela primeira vez trazia nas mãos um ramo de árvore.

Dois mendigos e amavam-se! Nem sequer eram extraordinariamente belos, mas deles irradiava uma força imensa – daquela moça sardenta, com resquícios de palha pegados aos cabelos, daquele homem cuja carne aparecia entre os farrapos. Não davam pelo Rei, não davam pela Morte.

Amavam-se. Atreviam-se num pais que ele mandara assolar para que nunca mais diante de seus olhos pudesse aparecer a imagem da vida e do amor!

Olhou-os o Rei durante alguns minutos em silêncio, e depois fez um gesto aos carrascos, que logo se apoderaram deles e os levaram. Sorriam-se os mendigos cheios de terra e ervas, e, enlevados, olharam um para o outro, ignorando o que se passava em volta – olhos nos olhos, mãos nas mãos...

Noite negra, o Rei subiu sozinho ao terraço. Restos de nuvens, restos de mantos esfarrapados arrastavam-se pelo céu. A árvore onde os dois haviam sido enforcados, mal se distinguia no escuro; mas de lá vinha um frémito, a sua agonia talvez, e uma claridade, os seus corpos decerto. Em vão reduzira tudo a cinzas – por baixo das cinzas latejava a vida. Toda a terra parecia fermentar. Ouvia murmúrios. Se as árvores falassem! Se as árvores e as coisas dissessem tudo que sabem! A agua chalrava, perdia-se em fios pela terra. Mas então ele não mandara secar as fontes?

Vozes, mais vozes ainda no escuro, a voz baixinha e humilde das árvores cheias de folha, que o vento chegava umas para as outras... Mas então ele não mandara despir para sempre as árvores? Pior... Mais fundo ainda, no negrume opaco da noite, o sussurro da vida – como se ele não tivesse mandado espezinhar a vida!... Encostado à muralha, passou a noite absorto. As nuvens galopavam, o grasnido dos corvos afligia-o... Porque não iria ele também ser macieira, mendigos, húmus? Transformar a dor em felicidade? Beber o sol arrastado na aluvião da vida? Oh como odiava a mocidade, a ternura, os lábios moços que se beijam!...

Só a árvore esgalhada e seca o prendia ainda, a árvore sinistra que no seu reino servia de forca.

Ficou até de manhã de olhos postos naquele fantasma triste e enorme, negro como as ideias negras que tecia, seco como a sua própria alma – a árvore desmedida que no seu reino servia de forca... Começaram os cerros a tingir-se de violeta, as árvores a azular, e a forca, em que se absorvia, a destacar-se de entre a névoa, a árvore esgalhada e imensa que havia séculos perdera a seiva e a vida.

Súbito ficou imóvel de espanto. Aquecida com o amor de dois mendigos, tinha o galho em que pendiam enforcados cheiinho de flor. Dura e má como as pragas, juntara no ramo que os cobria toda a flor que a terra assolada não pudera produzir. Era nada, quase nada, algumas flores miudinhas prestes a sumirem-se ao primeiro sopro – era dor estreme e sonho estreme. Nos seus braços haviam sido enforcados muitos desgraçados e as suas raízes mortas pelas lágrimas de aflição. Tolhida com os gritos, não bebia água nem sugava húmus. Vira passar homens, primaveras e reinados, sem se comover, mão arrepelada a amaldiçoar a terra e o castelo. Assistira a transformações de solo, a tempestades, a cataclismos e a guerras, sempre petrificada como a morte – e naquela noite, trespassada pelo amor dos dois mendigos, desentranhara-se em ternura, como se nela se concentrasse toda a paixão, a Primavera e o noivado da terra –a árvore maldita que desde séculos servia de forca.

Raul Brandão (1926).

 

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